14 de mai de 2009

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Comprei um caderno novo esta semana e comecei a escrever de trás para frente, começo pela última folha e vou até a primeira. Minha educação pedagógica me diz que tenho de saber por que faço isso. Mas não sei.
Penso, escrevo e levo a folha rascunhada para a direita. Riscar um caderno novo é como mergulhar no mar e sentir cada célula da pele se liquefazer, virar água salgada e se misturar ao oceano. A caneta toca a folha, a tinta escorre maculando o branco, inundando o vazio seco de letras molhadas, salubres e salobras. Carrego a página à direita porque este é o sentido gauche. Tudo deveria ir para lá. Em direita, os sentidos não são buscados, as dicotomias não existem, a política é una. Ninguém debate. Todos andam em fila indiana rumo à eterna direita. Letra ante letra, palavra após palavra, cada página movida para trás do caderno em que despejo minha imensidão destra.
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3 comentários:

Graça Pires disse...

Comprar um caderno novo é sempre muito aliciante para o começo da escrita. Essa ideia de começar de trás para a frente... interessante... Gostei do texto.
Um abraço

jorge disse...

Leio seu texto lembrando de minha esposa.
Ela tem tentado me ensinar a ler revistas no sentido inverso, avaliar sempre antes de entrar em uma fila, buscar, avaliar o real sentido e não assumir posturas automáticas (não ser um autômata).
Tento ser isso na minha poesia.
Obrigado por trazer esse tema em seu texto.

Grande abraço,

Jorge Elias

Mésmero disse...

É difícil não ser um rôbo nesta sociedade, mas vale a pena tentar mesmo.

Quanto a ler de trás pra frente, faço isso com certa frequência.

Mas o que seria "avaliar antes de entrar em uma fila"?


Abraços