22 de dez de 2008

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Hoje descobri que ela parece ser realmente minha amiga. Não desejo concatenar, aqui, as ocorrências relativas ao passado nosso. Apenas confabular um pouco com este papel e descobrir o coberto. Vasculhar esse cofre de mistério que é a mente e o sentimento humanos. Porque tenho mania má de escurecer as coisas de mim. Ela me decepcionou certa vez, sim, ninguém pode se relacionar com outro sem passar por essas... situações. Bem fui cuidadoso e não a agredi com palavras. Fiquei foi triste. Taciturno por uns três dias. Até que superei. O tempo cura. Se não curar, não tenho qualidade mnemônica louvável. A gente tem de se lembrar os momentos em que o amigo foi amigo e esquecer as mazelas políticas de único infortúnio. Pois então. Esqueci nada: sarei. Nem contei a ela. Deixa estar. Um dia se percorre tantas pessoas que a gente aprende a separar gostar de gostar. Fico pensando se já assimilei a disparidade desse sentimento-ação, porque é verbo. Cri que sim, até aqui. Vejo verdade nos olhos dela. Sinceridade nas palavras. Elas machucam, às vezes,: a sinceridade e a verdade. Doravante tiro minha dúvida. Não é fácil desomitir nossas vergonhas. Também é difícil gostar de quem gosta da gente. Dá medo. Medo de errar. De pôr o pingo no A. E a pessoa que alegra-me descuidar de mim. Meditei tempos pra revelar a ela um secreto. Senti quentura na garganta, o olho esquentou com lágrimas embaçantes. Víamos a frota de navios com luzes, assemelhava uma cidade no meio do mar. Muitas atitudes são difíceis de explicar. Botar na cabeça de Deus que existe ateu, por exemplo. Nem todo Deus entende. Sei que até o presente ela é minha amiga. O futuro é mentira. Sem esperança. Amor. Confio.
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15 de dez de 2008

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Das muitas águas escorre sangue vencido
A terra vegetou por longos tempos
Tanto que desejou gordura
Satisfeita e decadente, invejou o oceano
Quis ser Deus por um momento
Firme inconstância do destino

No clima murmurado de Dezembro
Lástima de sol desgraça o vento
Chuva de poeta não mais existe
Veia inerte agora logra miscível
Sob a derme, resquício do que foi terra
Gosto pela gota do inverno
Do inferno
Pinga devastação

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Vergo linha
Muito morno
Bebo catástrofe

Faca aguda
Pulso firme
(vocação nenhuma, Clarice)

Aterrado fica o corpo
Está o corpo
Que não habita mais
Não há mais fruto

A terra mesmo nos une?
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