07/06/2009

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Réquiem


Está a um degrau de dar o primeiro passo para sempre.

O degrau em que pisa o lembra o seguinte. A sensação de nostalgia o faz memorar que já fez o que não fez; e, por causa do resíduo que não restou impregnado ao olfato, devaneia sobre as atitudes repetidas de outrora. E assim expande e encolhe os andares mnemônicos, pensando sobre si sendo ele próprio um pensamento.

Degrau imóvel o leva para cima com o mesmo movimento que o leva para baixo.

A vida era, quando criança. Obediente, seguia a voz da mãe no parque, para fugir do chicote do pai. Corria fazendo travessuras de gente pequena, gente que ainda não conheceu a cautela de homem grande. Não existia medo da vida, nem mesmo houvera percebido que vivia. Os momentos eram simples mas não simplórios. Crianças... Qualquer borboleta as diverte, batendo suas asas coloridas. Depois corria agitando seus bracinhos, dando upas! de alegria eufórica e afastando a borboleta que já descansava pousada em um galho seco.

Saboreia a visão calcada, primevo instante letárgico de uma série reticente.

A adolescência fora melindrosa e preenchida por dissonante alarde. Ocupava-se, noturnamente, quando todos iam dormir, em nada alcançar. Descobriu que jamais concluiria sua busca inexistencial, e que não havia pausa em seu cérebro, e que nada nunca atingiria. Fato. Desistiu do intento. E sonhou uma noite com um enorme pé que se agigantava sobre si, efetuando uma elevada e pesada passada.

Tudo está escrito no fogo. Vitupério do amanhã. Nunca chega o verdadeiro dia que a ciência não desvenda nem duvida.

A misericórdia por não ter lembrança de todas as coisas que lhe aconteceram até hoje o tem transformado em ser etéreo e insaciável. Alguns degraus da escada — constituída por apenas um degrau — são pulados em um passo mais amplo, outros, por tropeço de seu descaso (ou de seu caso com o ego), têm suas quinas feridas e traspassadas. Ora, não seria possível ferir o apoio físico sem oferecer perigo ao equilíbrio no qual se está tensionado. Em qual patamar ficou a sabedoria? Descer a escada não se pode: os degraus não hão mais. Sabe que, caso queira voltar, penetrará na escuridão do esquecimento onde o conhecimento ainda não ousou cosmogônico mergulho.

E fica para sempre a um passo do último degrau.

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03/06/2009

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Vozes da primavera

Joãozinho engatinha pela copa chacoalhando alguns brinquedos e balbuciando umas quase-palavras. Maria, sua mãe, prepara o almoço e cantarola enquanto apanha a cutela. Põe a mão sobre a tábua de carne e desfere golpe inesitante sobre o pulso. A mão semipendurada pelos nervos. O sangue espirrado na parede, nas faces, em Joãozinho, que começa um choro sem ar. Maria serra os tendões, sua mão treme em cima da tábua durante o processo. Então, atira a mão em Joãozinho gritando: aí está seu almoço!

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14/05/2009

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Comprei um caderno novo esta semana e comecei a escrever de trás para frente, começo pela última folha e vou até a primeira. Minha educação pedagógica me diz que tenho de saber por que faço isso. Mas não sei.
Penso, escrevo e levo a folha rascunhada para a direita. Riscar um caderno novo é como mergulhar no mar e sentir cada célula da pele se liquefazer, virar água salgada e se misturar ao oceano. A caneta toca a folha, a tinta escorre maculando o branco, inundando o vazio seco de letras molhadas, salubres e salobras. Carrego a página à direita porque este é o sentido gauche. Tudo deveria ir para lá. Em direita, os sentidos não são buscados, as dicotomias não existem, a política é una. Ninguém debate. Todos andam em fila indiana rumo à eterna direita. Letra ante letra, palavra após palavra, cada página movida para trás do caderno em que despejo minha imensidão destra.
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14/03/2009

Peña brava

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Hay una peña brava

aquí, en la costa,

el viento furibundo,

la sal del mar, la ira,

desde hace siempre, ahora

y ayer, y cada siglo

la atacaron:

tiene arrugas,

cavernas,

grietas, figuras, gradas,

mejillas de granito

y estalla el mar en la roca

amándola,

rompe el beso maligno,

relámpagos de espuma,

birlho de luna rabiosa.

Es una peña gris,

color de edad, austera,

infinita, cansada, poderosa.


Em dois mil e oito homenageei Fernando Pessoa, no Dia do Poeta — e meu também, pois nasci a catorze de março do século passado —, postando Aniversário, se bem que o poema é de Álvaro de Campos e até queria o contrário: o Pessoa fosse heterônimo do Campos. Deixando meus achômetros de lado, este ano escolhi um do Prêmio Nobel Pablo Neruda. Foi difícil a escolha e talvez acabe incluindo outro dele aqui, para desencargo de consciência. Em verdade, nem li tantos poemas dele assim, tenho um livro do dito cujo, presente da Renata (brigado, moça!). A edição é composta por dois livros póstumos do chileno, Defeitos escolhidos e 2000. Peña (hijo de puta! O Word com essa mania de correção fica tirando o til do ene.) brava faz parte de Defeitos escolhidos, que, aliás, me agradou bem mais do que 2000. O bem escrito poema me fascinou desde a primeira lida, deste modo: periplei, parecia, imageticamente, que lia Tolkien, ou uma ficção qualquer. A fotografia mental que faço logo no primeiro verso é a de um velho sentado em algum local numa praia deserta, observando o horizonte, com o viento furibundo agitando seus grisalhos cabelos e a camisa de botão, a qual não consigo definir uma cor, mas é clara. Enquanto isso, o mar fica molestando a potente pedra, que, pelo tempo, já deve estar acostumada a levar na cara umas boas porradas da molenga água. Se descermos mais um poucochinho (venero essa palavra) no poema-pedra, encontrar-nos-emos um verso só de cavernas, ali estão as imemoriais cavidades que se perdem terra adentro com suas gretas a esconder sabe-se lá quê; um onde esculpido pelo tempo. E o mar, símbolo de infinito e revolta com suas agitadas águas, continua a ferir as fendas da pedra, mas amando-a, beijando-a, até provocar relámpagos de espuma. E a lua e o meu velho, ambos também já têm cor de idade, assistem a tudo sem poder, e talvez querer, fazer nada. Introspectivo, o velho olha mas não vê. Raivosa, a lua, quem pode dizer?, brilha de ciúmes por não possuir um parceiro que a espanque e foda suas crateras solitárias.

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12/03/2009

Sabor maçã

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Factual mordida na fruta

Os dentes mesclados com a massa da maçã

E o caldo escorrente ao lado da boca

O líquido adocicado entre lábios

Gotas de mancha sobre a bermuda

A ferida na boca descuidada

Que entorpecente textura:

vermelha e branca

O sangue a massa o sumo



e u s e m e l a

palato e casca

mar e lua

espelhos de querenças

quem por quem?

reflexo de um fruto escamoso

(nunca eu, o gomo)

a boca da maçã com seus olhos

um outro céu inside

minha saliva mais sua visão

...co-incidências...

caninos no interior desse pomo

meu deus...!

e u s e m e u



...............Cnofusoã on epasço coático

Engodo imagético da descrença


...............Que se

Que me

...............Que te


Sem

............Vinha

Com

...........Meu


Quanta massa na boca!

Tal qual dentes na maçã?...............

Que tal vida sem sabor,

Como morte de uma dança?...............


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06/02/2009

Capitu demais ou Bovary assaz

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Não! — Ela contestou. — Prefiro à meia luz.

E regulou a persiana que eu fechava deixando-a entreaberta. Assim, a luz exterior invadiu a sala e luminou calidamente a marca de biquíni que ainda permanecia, em parte, coberta por seu jeans e sua cami...

— Eu já tirei a camisa, quer que eu faça tudo sozinha?

Ela sempre fica impaciente nessa hora, também, pudera, uma ninfomaníaca como ela está para surgir sobre o seio da terra.

Da rua vinha o pio dos pardais. A estridente sinfonia das infantes na rua invadia o recinto, deviam brincar de algum jogo que, pela algazarra, não se podia jogar em silêncio. Aqui, no interior da sala, uma sombra não era o breu total e nem a claridade indicava presença de luz. — Não. — O ambiente se preenchia de uma convalescente energia reveladora de corpos. E não era a visão o sentido que permitia um notar o outro, mas um sensor climático, um brilho surgido de todos os lugares e de lugar nenhum. A perfeita simetria das curvas dela se desvendava à medida que minhas mãos tocavam suas elevações e fendas, com certo pudor, num primeiro momento, e, em seguida, manejava os dedos com fervor a lhe arrancar gemidos.

Ventre esguio abria caminho para um púbis gêmeo à perfeição; quadril singular como um novo mundo. Um mundo aparentemente virgem, aparentemente...

Minhas mãos tocavam de forma suave as suas, como se assim nos reconhecêssemos, e eu acabava sempre por levá-la à minha boca, beijando-a vagarosa e intensivamente — como forma de incitação inicial, não de carinho. Ela deitada, segurei um de seus pés e elevei um pouco sua perna. E beijei seu pé carinhosamente enquanto minhas mãos deslizavam perna acima. Com ela as preliminares não necessitavam de-longas, visto que a sua sede sexual não tinha máscaras. Séria, ela me olhou e moveu os lábios comprazidos, desejando que continuasse o périplo pelo seu corpo. Porém, para mim, isso não importava tanto, tinha que acontecer do meu jeito. Prossegui. Meus lábios caminhavam à superfície de seu ser, encontrando (e me perdendo), a meio caminho, seus desejosos beijos. Depois disso, era dada a largada, ela estava definitivamente pronta. Agora que minha boca estacara, era a vez de minhas mãos percorrerem as sinuosas estradas que a mim se mostravam, beijando intermitente as coxas até chegar a seu sexo. Eu sentia cada fibra de seu ser se arrepiar, e a entrega era, já naquele ponto, total. Um misto de mãos e bocas numa confusão de prazeres.

Delicadamente, pus meus lábios em sua vulva, evaginei minha língua e provei o ígneo mel. Agora ela se retorce, coloca as mãos em minha cabeça e a força para dentro de si, num frenesi desesperado por prazer. Concomitante, passo a acariciar seus seios e a intensificar a felação. Para ela, esse é o verdadeiro significado do Amor. Língua e clitóris se confundem em minha boca lasciva. Ela quase grita, não havia palavras inteiras, apenas frêmitas letras que expressavam bem mais do que as que agora emprego para descrevê-las. Meus dedos e seu corpo se afinam num vaivém rítmico, em busca de tom perfeito. Com movimento copulativo, ela me acompanha, aperta-me contra si. Sinto-a estremecer. Mordendo o lábio inferior, ela urra. Sua respiração acelera ao mesmo tempo em que meus dedos e minha boca fazem seu corpo vergar-se. Ela goza.

Inversa à melindrosa aparência eram suas atitudes.

Não demoramos muito, mas a sala, dentro em pouco, se tornaria uma completa penumbra. A escuridão poderia revelar o plano escuso.

Ela tinha que sair.

Enquanto Iane escovava os dentes, meu telefone vibrou. Era Nelsi. Atendi: ei... aguardei um instante. O silêncio me informou acerca dos pensamentos alheios. Perdeu o ônibus? Ah, Aline, mas você é sonsa, hein! A ausência de ruído dentifrício me fez esperar Iane à minha frente, injuriada. Está bem, Aline, vou esperar aqui. Beijo! Quando ouviu minha voz, Iane saiu lépida do banheiro, com a escova entre dentes. Desliguei o aparelho esperando a pirraça. E ela chegou peremptória. Poxa, você prometeu que passaríamos o fim de semana aqui. Aquela vaca da sua namorada fez de propósito, aposto! Não é minha culpa, sinto muito. E como saber de quem era a culpa, a confusão estava tão engodada quanto um novelo, mas não sou de resoluções, gosto de soluções rápidas. Talvez porisso não firme relacionamentos senão amizades coloridas ou só amizades. Porém é um talvez.

De nada tenho certeza.

A manha de Iane é algo libidinoso de se ver e sentir. Difícil resistir. Sua voz meio melada tesa até o ser mais casto. Parece brincar com sua volúpia. Resisti. Ela? Ela continuou gritando. Sente uma ova! E o que farei agora, meu namorado viajou esta tarde! Vá para casa, Iane, tome um banho e descanse. Se conseguir enrolar Aline e levá-la para casa, eu passo em seu apartamento. Não ia passar, estava dizendo “não” ao antigo ser frágil. Não. Não. Não cederia dessa vez. Ela que se arranje com quaisquer instrumentos em seu apartamento. Sabe que não consigo ficar sozinha, passar uma noite inteira então. Era a mais doce verdade. Desde quando nos conhecemos não havia um dia sequer sem amor. Tudo ótimo para uma pessoa da minha idade e disposição, eu aturava o exagero dela. O problema do relacionamento foi a traição. Eu transo todo mundo. Não engano. Não digo que amo. Há uma diferença lancinante. A Iane, num de seus ataques ninfomaníacos, flertara com Aline. Nunca me ludibriaram com igual formosura e mestria. Porém, a estratégia não fora perfeita ao ponto de ocultar a todos os olhos do bairro. O troco ia ser dado este final de semana, com cada moeda de meu cofre.

Não havia passado nem cinco minutos, após ela ter trancado o portão, o namorado dela adentrou.


Letra e Biguidade por Luiz e Bruna


04/02/2009

Vertigem

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O relato digitado foi narrado a mim por um colega de faculdade que não só permitiu como também desejou a publicação desta história de acontecimentos imprevistos até mesmo para os dias de hoje.

Livre de toda ausência, Arcádio convivia com sua bela esposa, nomeada Teresa, há confortáveis cinco anos. Durante o período, a rotina de ambos foi costurada em tecido permanente, durável e necessário, como a lã. Arcádio despertava, olhava para o relógio analógico exatamente às 07:30, espreguiçava, para, às 09:00, secretariar o dia de outros funcionários de um fast-food do shopping local. A esposa permanecia em casa em companhia do melhor amigo do homem, de alcunha Félix, a cadela companheira de todos os dias. Esse caso, então, era a melhor amiga do homem. Às 18:00 Arcádio chegava a casa e durante a semana a existência do casal era preenchida majoritariamente por sexo. Este não era adornado de frases e gestos piegas ou românticos. Uma vez, Arcádio tirara sangue da boca dela. Com essa mão: ela pediu bate, ele bateu. Com tudo. Em cheio. O sangue dentro da boca, ela não o deixava escorrer, nem mesmo cuspiu, mas enquanto a penetração estava latente, o líquido viscoso borbulhava feito lava emergindo de fresta vulcânica. Com selvageria, era assim que os cônjuges era um casal. Pouco dialogavam, mesmo não era necessário. Apetecia às vezes um afago no cão, um comentário frívolo sobre fatos corriqueiros. Apesar de o carisma ser fator inútil para a relação do casal, por dentro, naquela região invisível que os filósofos chamam de alma, a necessidade do outro ocupava área precisa.

O que o subjuntivo colega quis que fosse contado começa adiante.

Desgraçadamente, Teresa saiu de casa para passear com Félix e faleceu. Se debaixo de uma carreta sua cabeça teve o último pensar ou se bala achada perdeu-se em sua nuca, nem eu nem o narrador do caso sabemos. Não nos foi descrito a causa mortis.

Findou-se que Arcádio passou a morar sozinho. Bem, nem tão. Havia Félix. Arcádio sofreu com a morte de sua esposa como qualquer ser humano. Marcou seu luto com silêncio, saudade, desesperança. Deitado na cama que agora era espaçosamente fúnebre, pensava nos momentos pretéritos com Teresa... Em dormindo, sonhou que caminhava por um labirinto feito de ruas e casas, como num bairro residencial, e era puxado por uma corrente atada a seu pescoço, como um cão. Ele era um cão. Viu que cada pessoa no labirinto era acompanhada de um cachorro, e este parecia farejar algo atrás das muitas portas. Assim, cada porta era saída específica para cada perdido presente. O nosso cachorro, i.e., Arcádio, farejou algo familiar no ar e perseguiu o olor que terminava numa casa dourada e cuja porta era dupla. Logo que seu portador a abriu, o cão-Arcádio entrou em um recinto holofotemente iluminado, recebendo ovação e palmas. O primeiro objeto que viu foi um microfone unido a um pedestal, foi quando pensou como iria falar/latir nele, se fosse preciso. Porém, ao olhar para si mesmo, observou que era humano de novo. Caminhou, avistou grande plateia feminina sentada e percebeu: o ambiente era um tanto conhecido. Estava no programa Porta da Esperança, com Sílvio Santos. Arcádio ia perguntar ao apresentador o que fazia ali, mas nesse ambiente quem faz as perguntas é o Sílvio — não é, Lombardi? Má’ oee, diga, Arcádio, quem botou esse nome em você, seu bisavô, ele estava de sacanagem, não estava? Não é um nome muito, certo? Nã-não, Síl... Você amava sua esposa, Arcádio? Sim, cla-claro, Sílvio. Então me diga, Arcádio, por que a deixou sair sozinha àquele dia? Você deveria cuidar melhor do que é seu, seu palerma! Lombardi, será que ele merece algum prêmio? Merece, patrão. Então vamos abrir as Portas da Esperança! As portas se abrem e eis que Teresa surge usando um longo vestido preto com um nada discreto decote. Arcádio vai a seu encontro, abraça-a, beija-a e antes de sentir pressente: os lábios dela se soltam na boca dele, definham. Sobe um inebriante cheiro de carniça. Antes de acordar assustado, ele ainda ouve Sílvio falar: É, Lombardi, você acertou, ele mereceu...

O último instante de sua vida ela estava com Félix. Com esse instantâneo de pensamento somado ao pesadelo da noite anterior, sua imaginação deu início a uma série de bizarrices imaginativas. Entre elas, pensou nas muitas religiões que habitam o Universo, e lembrou-se de uma com destaque: Espiritismo. E se a alma de Teresa encarnou em Félix? A raça da cadela era labrador. Arcádio resolveu testar sua espirituosa ideia chamando o animal e dando tapas em seu focinho. Félix reagiu da forma como qualquer animal domesticado responderia à “brincadeira” de seu dono, lambendo-o. Arcádio, em sua loucura, viu na atitude do animal um sinal de que era sua amada re-encarnada em Félix. Daí, começou a brincar com a cadela com peculiar fascínio, pulando na cama, correndo pelo quarto... Até se cansarem e deitarem. Dia seguinte, o homem desposou (sic!) a cadela em seu leito e, amiúde, passou a fazer sexo com ela todas as noites. Certa madrugada, Arcádio, insone, despejou sedativo no leite de Félix. Transou. Cortou a pele da coxa traseira do animal, e mastigou a carne até o osso e assim doravante até a morte de Félix.

Quem me contou o caso exerce a profissão de enfermeiro em um hospital psiquiátrico (pudera!), onde Arcádio permanece. Ele, o meu confidente, soube da história pela boca do próprio autor da façanha. Arcádio foi descoberto por seus vizinhos que sentiram o veemente odor pútrido de Félix. Eles contaram que ele estava deitado em seu leito, e vestia apenas uma cueca. A cadela... Bem, da cadela só havia a carcaça com restos de carne que provavelmente Arcádio não conseguira arrancar dos ossos.

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24/01/2009

Tomo de bolso

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Abre as páginas de um livro velho e antigo

e sente o perfume das traças aclamadas pelo grande público

Com mãos sufocadas no bolso, o Homem observa as aventuras

que poderia ter usufruído, não houvesse medo de arriscar

pisar fora da monotonia de um dia que já dura a vida


O personagem zomba do leitor

É a criatura logrando seu criador

Sendo mais do que ele sempre foi


O Homem não solta a capa dura do livro em sua mira sedenta

Ousa viver circunspecto

enquanto escreve poemas

mais valorativos que toda uma vida


Pela palavra,

o herói salva o mundo apocalíptico do Homem,

pelo cujo homem

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22/01/2009

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Como se soubesse que é bendita pelos enamorados, a lua sorria no céu negro acompanhada pelas estrelas que, uma a uma, resplandeciam. E sobre as folhas secas de uma castanheira qualquer, o casal altercava. Sobre sexo, ciúme, um pouco do de sempre. A menina aceita a explicação — desconfiada; Fernando aparenta ter saído de um túmulo, Brunela pensa, não quero outra discussão, a última se aproximou da linha imaginária do precipício que seria uma separação. Motivo: Brunela havia marcado um trabalho escolar de anatomia, a dois, com um menino de sua sala. Passional, Fernando não aceita, daí a briga. Após xingarem Deus e o mundo e insultarem o Diabo com seu próprio nome, cada um seguiu seu rumo, fadado e particular.

Mesmo depois de fazerem as pazes, Brunela não soube o que aconteceu com o namorado àquele dia. O próprio Fernando não tinha certeza. Ela pensava que o motivo da apatia sexual dele era a briga e esperava do tempo o remédio para a ferida. Porém as semanas passavam e Fernando estava cada dia mais taciturno, sua palidez assemelhava-se a de um vampiro e, isso ele não podia negar, havia emagrecido. A frequência com que os dois se viam diminuía do mesmo modo que o aspecto tétrico de Fernando aumentava. Às vezes, Brunela sentia uma inquietação no namorado como se ele quisesse lhe contar um segredo, mas ela não forçava nada, esperava o momento certo.

Fim de tarde, o sol se aproximava do horizonte e os dois caminhavam pela praia, o vento sacudia os cabelos de Brunela ao mesmo tempo em que a areia batia em suas pernas. Fernando começara a narrar sua história.

Disse que, quando saiu da casa de Brunela, à data do desentendimento, andou pela orla da praia bebendo até perder o domínio do corpo próprio e tombou-se ali mesmo devido à embriaguez e teve um sonho. Curioso é o fato de o sonho se passar no mesmo local em que cochilara. Nesta quimera, ele acorda em frente ao mar, a Lua Cheia ilumina a água baça e o silêncio inquietante o faz tremer. Somente o barulho das ondas ele escuta, quando outro som vem do mesmo local, como se a água fervesse. Então ele observa as borbulhas se moverem a sua direção. Seis anões carregam uma enorme concha rosada, eles parecem ígneos, pois toda a água ao redor deles ferve como se um vulcão estivesse surgindo. Param e depositam a concha sobre a areia, ela se abre e a única coisa que Fernando vê, a priori, em seu interior, são mechas de cabelo que parecem ter vida própria e se movimentam numa dança libidinosa. Depois se abrem, revelando sua origem. Uma mulher nua sai de seu abrigo calcário encarando Fernando que, movido por excitação, caminha languidamente alterado. Tudo que Fernando deseja é cair nas pernas daquela deusa e satisfazer sua concupiscência. E ela o sacia. Logo depois fala como cantasse:

Expulsa do Jardim fui
No Oceano há meu refúgio
A terra não me comporta
Traze a mim muitas mortas

De Eva já fui chamada
De Vênus, a enciumada,
Mas há já muito sou Lilit
Prima, e verdadeira Filha

Deveria continuar a história, mas me parece que ela terá seu ponto onde todas se encerram: no “fim” (já entenderão o porquê das aspas). Uma de minhas compreensões de contos, romances e poemas é a de que não se deve pôr final, mas sempre fomentá-los de exageros ou de faltas propositados que não demonstrem fim nem começo, contudo o modo de construção básico ou ilimitado, fantástico ou argumentativo... Talvez como um jogo de cartas em que não se lembre quais foram as primeiras da rodada e muito menos quem ganhará a partida, mas, conforme a baliza do cartear prosseguir sem certezas, a inexatidão do jogo o transforme em menos existencialista do que a aritmética planejada por cada jogador. E porisso mesmo mais emocionante e paradoxalmente racionalista.

Continuo a escrever aquilo que li outrora de algum filme; o que interpretei de um poema que nem me lembro, mas que se encontra arquivado sob a pátina de minha memória; de romances que me lembro da história, e não recordo nomes de personagens e nem do título. Prossigo o que não pode ser acabado, porque o início existe tão longínquo. Todos somos autores e poetas, decerto há os passivos; civilizadores de um mundo inacabado (ora, então construtores e destruidores de nosso mundo, o que o torna eterno); imaginadores de Deus e deuses. Há mais dentro do oculto do que no difuso. Consoante vamos implodindo nossa degradação, a criação irrompe em lágrimas catárticas, em risos esquizofrênicos ou em memórias que não comportam apenas uma qualidade, mas substantivos, neologismos, metonímias, metáforas...

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15/01/2009

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Último

a deus
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08/01/2009

Elias

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em ser rés tem de perder ser e merecer nem ser; querer nem ser-se e descer dez vezes rés: meter-se em pés descrentes que cessem de vez em pó; e mesmo que o medo de perder o ser em pó de pés descobertos mescle o ser com o resto podre pense que é somente o rés do resto do pus poroso e sopese o ser com o rés do ser que é pus que é póstumo que é sem ser que se segue sendo o pó do túmulo de nenhum defunto, mas de um profeta trasladado, de um defunto que nunca ocupou sua mesma casa, um ser que passou a não ser sem passar pelo não sendo. O ser que não era mito passou a ser. O rés que não era tudo passou a ser nada, nem tudo que vira mito se desnuda em pó ou vem de pá de lavrar palavra: funde-se ao infinito que é finito que é piso de Uni(r)verso mítico
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02/01/2009

Par e três (clique)

22/12/2008

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Hoje descobri que ela parece ser realmente minha amiga. Não desejo concatenar, aqui, as ocorrências relativas ao passado nosso. Apenas confabular um pouco com este papel e descobrir o coberto. Vasculhar esse cofre de mistério que é a mente e o sentimento humanos. Porque tenho mania má de escurecer as coisas de mim. Ela me decepcionou certa vez, sim, ninguém pode se relacionar com outro sem passar por essas... situações. Bem fui cuidadoso e não a agredi com palavras. Fiquei foi triste. Taciturno por uns três dias. Até que superei. O tempo cura. Se não curar, não tenho qualidade mnemônica louvável. A gente tem de se lembrar os momentos em que o amigo foi amigo e esquecer as mazelas políticas de único infortúnio. Pois então. Esqueci nada: sarei. Nem contei a ela. Deixa estar. Um dia se percorre tantas pessoas que a gente aprende a separar gostar de gostar. Fico pensando se já assimilei a disparidade desse sentimento-ação, porque é verbo. Cri que sim, até aqui. Vejo verdade nos olhos dela. Sinceridade nas palavras. Elas machucam, às vezes,: a sinceridade e a verdade. Doravante tiro minha dúvida. Não é fácil desomitir nossas vergonhas. Também é difícil gostar de quem gosta da gente. Dá medo. Medo de errar. De pôr o pingo no A. E a pessoa que alegra-me descuidar de mim. Meditei tempos pra revelar a ela um secreto. Senti quentura na garganta, o olho esquentou com lágrimas embaçantes. Víamos a frota de navios com luzes, assemelhava uma cidade no meio do mar. Muitas atitudes são difíceis de explicar. Botar na cabeça de Deus que existe ateu, por exemplo. Nem todo Deus entende. Sei que até o presente ela é minha amiga. O futuro é mentira. Sem esperança. Amor. Confio.
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15/12/2008

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Das muitas águas escorre sangue vencido
A terra vegetou por longos tempos
Tanto que desejou gordura
Satisfeita e decadente, invejou o oceano
Quis ser Deus por um momento
Firme inconstância do destino

No clima murmurado de Dezembro
Lástima de sol desgraça o vento
Chuva de poeta não mais existe
Veia inerte agora logra miscível
Sob a derme, resquício do que foi terra
Gosto pela gota do inverno
Do inferno
Pinga devastação

* * *

Vergo linha
Muito morno
Bebo catástrofe

Faca aguda
Pulso firme
(vocação nenhuma, Clarice)

Aterrado fica o corpo
Está o corpo
Que não habita mais
Não há mais fruto

A terra mesmo nos une?
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24/11/2008

Lançamento de livro



http://corpoemsilencio.wordpress.com/

13/11/2008

O Sofá

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O sofá da sala fez alguns anos
A vida que assenta
Não é a mesma que assentou
Foi conspurcado
Abusaram e deitaram no sofá
Não pediram
Ele não reclamou seu direito de sofá
Deitaram e abusaram do sofá
O quadro fixado na parede
Incomoda ninguém
Arte que virou enfeite
Provável se excluírem da sala
Deixe mais besta a parede
O tapete firma quem está de pé
Aquece e conforta
Luxo mal percebido
Nem importa de onde advindo
Pisado, quem trabalhou a trama não interessa
Está pronta e... paga?
A sala permanece notável
Enquanto a tv está ligada

Mas o lucro é do sofá
O sofá da sala que fez alguns ânus
0

30/10/2008

A quinta fase da Lua (parte 1)




A face negra da Lua


Que impressão causa ao homem o mistério das coisas?
O desconforto da curiosidade, a busca pela revelação?
A parte obscura da Lua me incomoda
Mas não me diz respeito
Que diferença faz?
Tenho quase certeza de que ela não se pergunta
Por que eu não resplandeço para ela me admirar
Mas a verdade é que tenho de desvendar
Esta folha em branco me diz muito mais coisas
Do que a obscuridade da face negra da Lua
Que nem sempre é negra
Mas hoje resolveu ser
Sou movido pela invisível motriz lunar
Por sua força, a maré esvazia cheia
Não há lado negro na Lua
Mas ela é branca porque tem um lado negro
Você só é bonita porque a outra é feia
Sem contraste não há beleza, não há divisão,
Não há artigo definido, não há ser, não há...
Que maldição seria o dia, não houvesse noite!
O que eu faria do seu amor, se não me sentisse só?
Eu o guardaria com carinho
No vento que passou
E nem mesmo respirei
Agora só estou certo porque tive dúvida
Mas, olhe, veja, não é monótona essa certeza?
Existe um impulso na onda da maré morna
Que quebra a calmaria da vida
E esse vetor é a morte
Observou?
Outro contraste!
Não há eternidade sem morte
Sem o homem não há Deus
Jesus está certo: o Diabo ou a cruz
Não posso ser os dois
A balança cosmogônica exige equilíbrio
Enquanto uns fazem filhos, outros matam
Do trapézio da vida, cuspo em tudo isso
E que o Diabo pegue a cruz e enfie!
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14/10/2008

Telperion




Nada há.

A água do Caos
Rega a semente
Germina ser
Árvore

A raiz expande o Cosmos
Ara a terra
Se aprofunda no pó
Da morada sempiterna dos mortos
Surge a vida

De sua bela flor transcende a Lua,
musa fértil dos amantes,
das criaturas noturnas e
dos seres errantes

Cresce indiferente aos outros seres
Seu primeiro ramo
Almeja o Céu
Seu primeiro ramo
Nasce verde
Seu primeiro ramo
Morre cinza
No galho
Ermo
Do desvio

e quando tudo acaba
Fëanor seiva ser deus

aguarda





07/09/2008

Division Bell




Durante milhões de anos,

A humanidade viveu como os animais.

Aí algo aconteceu

Que libertou

O poder de nossa imaginação:

Aprendemos a falar

EGO


Angústia é fala entupida


Keep talking


))))ECHOES((((


Aglomerado

de

pólos


What do you want from me ................. tudo dito


…No time


Keep talking


I N C O M U N I C A B I L I D A D E


DESVALORAÇÃO ........................................... — My skin is cold!


Deterioração interna


WAR FOR TERRITORY


Keep talking


......................................................... há um

..................................................direito....... silêncio

..................................................pensar ...... a minha

..................................................consigo.....volta

.............................................................não

LOST WORDS

high hopeS

more sadnesS


The ringing of the division bell had began


É o homem que fechou a porta


Não precisa ser assim

Tudo que precisamos é continuar conversando

04/09/2008

.



E agora que o desespero de um futuro-dia
Finge não ter medo
Atrevo me olhar no espelho

Se oculta livre dentro do pulso
Um calibre nitrogenado

Omite sangrar mnemônico passado
Teima dizer: “tudo está bem, pelo menos você está vivo”
Qualquer desses dias
O mar pode molhar

Vejo a onda morrer
Perfeita!
Quebra alguma veia

Mergulho de uma verdade:
Você ainda pode sangrar

.

25/08/2008

Assassínio

.
Os passos, agora, aumentam a firmeza, enquanto os veículos passam velozes ao meu lado. Continuo caminhando, medito metafísicas, sob a abóbada negra, pontilhada de soturnidades. O céu, como um espelho da alma, reflete o que sentimos, parece me acusar com suas estrelas a brilhar intermitentes. A cachaça cria névoa, embaça minha memória. Esqueço quem fui nas últimas horas. Agora, eu apenas sou... fruto do acaso.

O efeito do etanol começa a dissipar-se, as reminiscências vêm voltando vagarosas deixando-me inquieto, não gosto da sensação. Sinto-me prisioneiro em mim mesmo. Às vezes, saboreio um gosto de sangue mas gosto. Essas ruas repetidas é que me dão náusea

18/08/2008

Duas da manhã

.
Deitada sem cochilo
Recorda
Uma lembrança voluntária:
O sofá dos dezessete...
A prima encolhida

(chatice de tempo recente)

O short jeans
Mãos debaixo do lençol
O toque
Goza dissoluta

(cratera temporal)

Vento sopra folha
Quem interferiu?
.

04/08/2008

.
fu mar
..chá
vegeta
.folha
.mate
..nau
.vega
..can
...to
mares?
,

29/07/2008

Fazenda de Crianças

As pessoas querem saber por que eu faço isso,
por que eu escrevo essas coisas tão horríveis.
Eu gosto de dizer a elas que eu possuo
o coração de um
.
garotinho, e eu o guardo
num pote em cima da minha escrivaninha.
King

Era um sábado de céu azul quando acordou com a máquina que bombeia o sangue batendo forte, suas mãos pareciam untadas de tanto suor, as pálpebras se recusavam a permanecer fechadas, retirou a coberta de sobre o corpo, levantou e caminhou até o banheiro, viu sua imagem no espelho e permaneceu alguns segundos imóvel olhando assustado para ela. Sua pele amarelada transpirava continuamente, as íris cor de mel estavam quase escondidas pelas pupilas dilatadas, como se houvesse usado cocaína. Abriu a torneira e jogou água no rosto a fim de despertar-se por completo.
Bento gostava de passar os finais de semana em seu sítio, em Terra Vermelha Dois, para descansar do estresse rotineiro que o afligia.
Quando saiu do banheiro, atravessou o corredor em direção a sala, o chão de taco escuro criava ao ambiente uma aparência soturna mesmo para um sábado de céu azul. Quando chegou à sala deparou-se com uma mesa de mogno, a qual não era rodeada por cadeiras, e, em cima dela havia uma criança deitada, era pálida e estava nua.
Minuciosamente Bento começou a trabalhar o cadáver. Primeiro ele incisava com o bisturi acima do esterno e traçava uma linha reta até a região pubiana, em seguida retirava tangencialmente o tecido epitelial, de forma que a pele saía inteiriça. Fazia isso como quem retira o excesso de pele de um frango, só que para Bento a pele era o principal.
Depois de retirada, a pele era cuidadosamente lavada e posta para secar. Dessarte, ele cosia as peças.
Quando terminou a extração, seguiu para outro cômodo da casa, este ficava atrás de uma falsa estante, que era na verdade uma porta. Abriu-a e acendeu a lâmpada. A casa era desenhada de tal forma que quem chegasse ali nunca desconfiaria de um cômodo escondido e ele era espaçoso, dentro tinha uma máquina de costura profissional, uma mesa de mármore e, do lado oposto, um guarda-roupas. Em cima da mesa havia diversas roupas: blusas, camisas, calças, gorros. Todos feitos com peles infantis.
.

24/07/2008

.
O Senhor me possuiu no princípio de seus caminhos e antes de suas obras mais antigas. Desde a eternidade, fui ungida; desde o princípio, antes do começo da terra. Então, eu estava com ele e era seu aluno; folgando no seu mundo habitável e achando as minhas delícias com os filhos dos homens.

Pv. 8.22-23, 30-31

s.

No princípio, descobri a Sabedoria e avistei o infinito

...................Não consegui desvendá-lo e criei um Ser infindo

(Para culpar minha sabedoria, que não pude compreender)

...................Todavia, tentava obedecê-Lo e por saber que não podia

Concebi outro que perdoava e sangrava como eu

...................Por fim, pari o Fim destruindo-me, pois não sabia

Que, desde o início, aquele Ser vivia dentro de mim.
.

29/06/2008

,
Independência

a vida vive sem mim
e eu morro sem ela.

,

20/06/2008

,
beleza muda

boca assim bem rosadinha
como a boca que cê tinha
só não era tão bonita
quando a boca cê abria.

,

18/06/2008

.
Absorvo a todos que convivo
Vivo com todos que absorvo
Sorvo tudo que está consigo
Sigo o mundo que está no outro.
.

15/06/2008

Dizem que ser poeta é ver e sentir as coisas de modo diferente,
E perceber nos objetos a sensibilidade do impalpável.
Mas não é a rosa a poesia pura em si desnudada e visível a todos?
A flor não precisa do poeta para se tornar poesia, ela já o é!
Assim como o Amor não necessita de um alvo para que sua existência seja real.



Todo poeta é egoísta e digo que o meu poema é bom!
Pois como iria reclamar o mundo - se não gosto dele - com algo do mesmo nível?
Por isso digo: meu poema é altruísta e melhora o mundo!

10/06/2008

Anatomia de uma poesia morena


,
Pernas

Dísticos verticais,
Seu destino é se cruzar.

Mão

Para nos tocar
Numa melodia,
Foi composta tão
Delicada quanto
Uma redondilha.

Boca

Como nave rósea
Me faz ascender
Ao céu onde prostro
Meu sacro desejo.

Com ela proclama
Benditos segredos
Oblados na cama.

Sopra minha nuca,
Morde minha alma,
Nina o meu jugo,
Parte minha carne

E imola a mim
Feito decassílabo
De versos partidos.
,