24 de mar de 2008

Uma Tarde



Reconheci, pelos olhos, o sorriso
Só visto em foto de minha amiga
E confabulamos por várias horas
Até o triste matiz do arrebol.

Agora cresce uma má vontade
Em meu peito assaz contrito
Porque chegou a hora da partida,
Da distância longínqua sem alarde.

Na imensa lotação, observo e concluo:
Este lugar é um ermo platônico;
Devotado a Satanás está o mundo,
Oxalá Cthulhu viesse de Plutão!

É melhor o descaso ou a alienação?
Reme, meu peito, singre para longe
Do lacrau urbano e se lembre da feição
Amiga, que sempre será a fuga deste bonde.

18 de mar de 2008

Venda Transparente

O tempo em que não me preocupava
Com o dia futuro virou sonho
Agora a rotina é claustrofóbica
Cercada por paredes ocupacionais,
Lacrada por um teto de obrigações
E ao meu lado tem uma, duas,
Sete e quarenta e duas pessoas
Que não se vêem, mas se olham
E, nesta sala, o número é crescente
De vida, não sei se posso chamar de vida
A liberdade existe, contudo lhe aconselho
A não expressar o seu pensar
Pois a verdade já se definiu há dois mil anos,
E você?

14 de mar de 2008

Aniversário

Bem, hoje é Dia da Poesia e meu aniversário, ambos coincidem com o aniversário de Castro Alves, mas vou postar um poema do Pessoa.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a.olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho... )
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos ...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos. . .

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira! ...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

12 de mar de 2008

Fotografia

























(...) Além disso, milagre, milagre mesmo, por mais que nos digam, não é boa coisa, se é preciso torcer a lógica e a razão das coisas para torná-las melhores.

José Saramago



O calcanhar - quase chegara a encostar o chão de barro seco - espera - inquieto e estático - a sola debruçar-se ao rés do solo para, assim, dar o seu derradeiro passo.

Uma corrente forte de ar ergueu a poeira vermelha fazendo-a girar no espaço vazio a deixar uma nódoa rubra - inerte - suspensa em nada.

O mesmo vento que soprou a terra fez balançar o baraço, por um átimo sufocante, mas logo o laço cessou seu movimento - inocente como uma criança de arma em punho que apesar de sua pureza ainda é fatal.

A Matéria permaneceu imóvel.
O condenado faleceu de outro modo.
(Ao pó não voltarás)
E o cadafalso permanece deserto.