3 de jan. de 2008

Recomeço

Ele procurava em meio às esverdeadas colinas, cobertas por gramíneas, ora subia e olhava de cima do monte a avistar melhor todo aquele imenso campo, ora descia quando julgava ter encontrado o que procurava.
Ela ergueu os olhos para o azul celeste, fechou um pouco as pálpebras cansadas e observou o céu desejando encontrá-lo. Talvez esperasse ele descer como um cristo para salvar à humanidade, mas nada acontecia. Tudo era esperança. Nada daquilo fazia sentido, percebeu que não ia durar muito e a Raça estaria enfim extinta.
Buscou no marulho, na brisa e na vastidão do mar almejar o que era fundamental para a vivência de uma espécie que aprendeu a nadar como os peixes, voar como a águia, mas, agora, tudo isso era inútil.
Os dois se encontraram próximo ao rio, que descia sereno e constante sob e sobre a trilha pedregosa e bela, que a cada instante mais esbelto tornava-se.
O olhar vazio de um tocou o triste do outro.
Sem esperança, continuaram a essencial caça ao tesouro mais precioso que o Homem já conhecera. Subiam montanhas, entravam em igrejas, contando com o milagre, percorriam cidades inteiras, campos, serras e praias. Por todos os lugares onde passavam viam um número cada vez maior de animais, mas nenhuma pessoa.
Porém, nunca encontraram e este foi o fim da espécie que não soube aproveitar o dom supremo que havia herdado. Quem sabe o Criador transportou este fenômeno abstrato para um planeta longínquo no continuum espaço-tempo, quiçá encontrou criaturas que davam o devido valor que ele merece.
Jamais saberão onde, quando e como o Amor findou-se, mas agora não adianta mais.

1 de jan. de 2008

Palavras de Pórtico

"Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa: 'Navegar é preciso, viver não é preciso'.
Quero para mim o espírito desta frase, transformada a forma para a casar com o que eu sou: Viver não é necessário; o que é necessário é criar".


Começou um novo ano
No calendário solar
E, como o maior Heterônimo,
O que mais desejo é criar.

25 de dez. de 2007

Mamãe Noel

Esperei receber seu recado
Dentre tantos inúteis natalinos
Não encontrei meu relicário.

Com traquinas matei o tempo
E com a família me distraí
E o que faço agora sozinho
É somente me lembrar de ti.

Vem a hora e agora é
Você diz que irá buscar
Em meus braços o que perdeu
No tempo de imaginar.

E não bastam os meus braços,
Boca, peito e minha mão em seu seio
Sua em mim que seu é meu suor.

(Quanto mais baixa a estrofe
Mais quente o verso sobe)

Lépido, levanto a saia
Com minha glande erguida
Em seu glúteo sem saída.

Arranco, então, a peça derradeira
E, despida conivente, você pede: beija!
Com espaço de uma língua, seu clitóris
Se separa da minha abóbada palatina
Fazendo a alegria desta noite natalina.

9 de dez. de 2007

Boêmio

Cerveja gelada
Assopra meu fogo gole
Que desce gostoso

Este hai cai supra
Escrito fiz num boteco
Lugar escondido

O astro-rei já chama
Só não quero ir embora
E lá vem a Brahma

4 de dez. de 2007

Rascunho

Quero achar a solução para você, poema meu.
Mas você se acanha
e se esconde no verso de cada folha.

26 de nov. de 2007

T. S. Eliot

Quem é o outro que sempre anda a teu lado?
Quando somo, somos dois apenas, lado a lado,
Mas se ergo os olhos e diviso a branca estrada
Há sempre um outro que a teu lado vaga
A esgueirar-se envolto sob um manto escuro, encapuzado
Não sei se de homem ou de mulher se trata
- Mas quem é esse que te segue do outro lado?

.

8 de nov. de 2007





Uma vez carente de atenção
Misturei meus ideais sublimes
Numa silhueta romântica
Com sabor de utopia e
Não soube dividir
Em perfeita simetria
Meu onirismo da razão
Que era minha amiga





O sentimento que dá origem à amizade é crescente, se souber respeitar os limites, não linear, pois todo relacionamento é passível de conflitos, e, estes fecundam conhecimentos sobre o outro que, não houvesse o atrito, ficariam obtusos.
Existem amigos que passeiam em nossas vidas, mas, igualmente, são como chicletes, quando pensamos que eles não voltarão surgem com aquele inato sorriso e brincadeiras que, para outros, não fazem sentido.
Ademais, outros vivem fisicamente longe, porém próximos em espírito e parece mesmo haver um elo psíquico que avisa quando o amigo está em alguma dificuldade.
Alguns entram e saem da nossa convivência e, como numa cópula, geram frutos benignos ou não.
Sabe, amiga, sempre tive grande apreço pelos meus amigos e hoje tenho muito mais. Certas pessoas que conheci me ajudaram de tal forma que meu modo de ver o Mundo e o Homem transfigurou-se em uma ideologia mais coerente com a realidade.
Há um dito pelas ruas que diz que não existe amizade entre homem e mulher. Se isso for verdade, tenho muitas namoradas.

26 de out. de 2007





À margem, há mar
es trondosos
con toadas que
soam à-toa
mar orla
sob troa da
tempesta de
nu vem nubente
que pinga na pedra
sangue transpa
rente ao inverno
luar vernal vira
halo mar ginal

19 de out. de 2007

Jantar, à luz de velas

Tristeza posta à mesa do jantar
Acompanhada com sorrisos fingidos
Corroboram as meias verdades ditas
Com sete mentiras escondidas.

A barbárie da guerra civil
Mesclada à diversão da juventude
Serviu hoje mais um cadáver
Deixando o peixe insosso.

A cadeira vazia dá lugar ao fantasma da saudade,
Que não diz que vai chegar depois das dez
Que não pede sequer um copo d’água.

O suco de goiaba remete ao sangue inocente, pisado
E tem gosto de vingança inútil
Nesta ceia, a esperança é uma Quimera.

17 de out. de 2007

Lunático

Duma Lua muda
Jogo pedra na calçada
Lotada de gente

16 de out. de 2007

Antes de Dormir

Faço força para me concentrar nas imagens
O filme é de guerra — Eastwood
Soldados suicidam-se com a granada ao lado do peito
A honrar seu país. Eu não lutaria por esta terra,
Que só traz mazelas, fome, frio e guerra civil
Hoje, eu não lutaria por nada e nem por ninguém
O medo me dominou.
Medo da polícia, dos bandidos,
Medo de me apaixonar, de olhar embaixo da cama.
E da morte? Eu temo à morte?
Deus, Diabo. Céu, Inferno. Luz, Trevas.
O Homem é o umbigo do Universo, por isso não aceita
Viver só setenta, oitenta anos.
Daí criou Deus e o paraíso,
Mas tem que ser bonzinho pra subir, viu!
Quando o Japão vê a guerra finda e a batalha perdida,
Percebo que pensei em tudo menos no filme.

15 de out. de 2007




Die, Die My Darling

Morra, morra, morra minha querida
Não diga uma única palavra
Morra, morra, morra minha querida
Apenas feche seus lindos olhos
Eu vou lhe ver outra vez
Eu vou lhe ver no inferno

Não chore pra mim, oh baby
Seu futuro é em uma caixa oblonga
Não chore pra mim, oh baby
Deveria ter previsto isso
Não chore pra mim, oh baby
Eu não sabia que isso estava em sua boceta
Não chore pra mim, oh baby
Garota sem saída para um cara sem saída
Não chore pra mim, oh baby
E agora sua vida se esvai por aquele chão
Não chore pra mim, oh baby

14 de out. de 2007

E se...

E se eu disser que te amo, mas as palavras saírem trêmulas de modo a entregar minha falsidade?
E se eu disser que posso sentir meus leucócitos morrerem, um a um, deixando-me incapaz de qualquer imunidade, até mesmo de uma gripe?
E se eu disser que as pessoas se divertem com algo que é a causa da minha doença?
E se eu disser que as estrelas tentam, em vão, imitar o brilho dos seus olhos?
E se eu disser que só fui legal com você por que estava interessado na fenda entre suas pernas?
E se eu disser que estou arrependido por não ter aceitado o seu pedido de namoro simplesmente porque queria curtir meus dezenove anos?
E se eu disser que entendo mais de amizade que amor?
E se eu disser que o seu perfume me excita mais que você?
E se eu disser que a morte é a salvação?
E se depois da morte existir somente o nada?
E se eu não existir?
E se eu transar com Angelina Jolie, fará alguma diferença em minha vida, serei feliz?
E se você me disser que eu só sirvo como amante, contudo não conseguir me deixar?
E se eu disser que todo esse relacionamento não passa de um jogo de interesse e que você não o ama?
E se eu disser que sinto saudade?
E se eu disser que não?
E se eu disser que prezo tanto sua amizade que sinto medo e não quero que você conheça meus defeitos?
E se eu disser que sofro mais por minhas amigas que paqueras?
E se eu me casar?
E se eu disser que o sol não tem mais o mesmo brilho que outrora e que a chuva me deixa eufórico?
E se eu disser que todas as noites, que consigo dormir, sonho contigo?
Mas eu nada digo.

6 de out. de 2007

Cronologia

O tempo é Deus
O Diabo a relatividade.

28 de set. de 2007

Depressão

O marasmo me deprime.
Com esta melancolia me ofendo.
Quando finjo, existo.
Quem me ergue tira-me o motivo.
Qualquer isso, desisto.
Quem destrói meus devaneios?
Absinto.

21 de set. de 2007

Medo de Criança

Em fria madrugada, despertei,
Sem saber o porquê, quem ou o quê
A mim incomodava e me queixei:
Fale! Quem é você, soturno ser?

O silêncio, então, quebrado foi
Com ruídos estranhos de fazer
Minha imaginação criar na noite
Tremores nas entranhas do meu ser

Pela janela, luz lunar entrava
Sombras eram formadas em meu quarto
Sinto um odor de pus e uma desgraça

Que me observa calada e deturpada.
Pendurada sem jus pela garganta
Balança uma infante ma’abortada

4 de jul. de 2007

A Escolha

Tê-la em meus braços
Vê-la de longe
Não me provoque!
Não te assanho.
Quero você
Ter ou não ter?

Vira de costas
Pra ir embora
Deixo que vá.
Como rebola!
Quero sorver
Todo teu ser.

— Dá meia volta! —
Digo pra ela.
Ela me olha
E não dá trégua
Que vou fazer?
Quero saber.

Chego mais perto
E ela desiste
Lábios abertos
Fogo existe.
Vamos sofrer
Ígneo prazer.

Timidez

As palavras ficam tímidas,
Quando pego na caneta,
E se acolhem lúgubres
Dentro da minha cabeça.
Porque os sentimentos
Que estão cá dentro
Não falam a mesma língua
Que a ponta da caneta.

Desejo Fúnebre

Um dia
Eu queria
No mundo
A minha dor.

Numa tarde
Eu teria
A morte
Do meu amor.

E da noite
Eu faria
Uma lápide
Sem flor.

Um dia para esquecer

Às quatro e meia, Morfeu tirou meu sono.
Às sete e meia, fiquei mudo.
Quinze horas, tiraram-me o chão.
E, como se não bastasse,
Limitaram minha amizade.