12 de fev. de 2008



Anônimo saiu destilado
À procura d'outra Eternit
Chuva expressão cinza
Mão lixa molhada
Na ferida da calça
Ruas sem rotina senão
Cão mijando no caos

31 de jan. de 2008

e. e. cummings

Um político é um bundão sobre o qual
se sentou tudo exceto um homem.

26 de jan. de 2008

Há dias que desejamos ficar sozinhos, eu quero estar todos os dias.
Sinto saudades do meu tempo de moleque; do tempo em que não me preocupava com meus sentimentos; tempo em que o importante era amar transitoriamente; tempo eterno em minha imaginação; tempo de mordidas agridoces, de perfumes palatinos, de amores instantâneos e de orgias lúdicas. Mas se até quem foi rei disse que não há nada de novo debaixo da noite estrelada quem sou eu para me orgulhar daqueles momentos eternizados em minha memória, e talvez só nela, na dos outros não.
A lembrança alheia não tem importância para ninguém, não quero saber o que está pensando, sinta apenas o que estou olhando e será feliz.

25 de jan. de 2008

Reinus

Rei

Avisto dois pequenos montes morenos de solo fértil
Como portal firmado à entrada do palácio.
Teus lírios têm perfume estrogênico
E me rendo aos teus odores.

Rainha

Deixa-me sentir por miríades de gerações
O néctar viril jorrar de teu viçoso rio.
Ó, meu rei, não tenho mais terra para tanto gozo.

Freedom

Geografia confusa a nossa, querida
Não sei bem onde ficam as fronteiras
Quando o limite é violado.

23 de jan. de 2008

À Emoção Que Nos Cega


A porta de vidro do meu quarto, que dá acesso a uma pequena varanda, fez um estralo esquisito, curioso é saber que a mesma é corrediça não podendo assim ser forçada pelo ímpeto do vento.
Havia acabado de fazer o meu lanche noturno quando me deitei. Era pouco mais de uma da manhã e o silêncio invadia meus pensamentos com imagens e sons claustrofóbicos, se é que imagem e som podem aceitar tal adjetivo. Não conseguia correlacionar àquelas troadas com as alucinações tétricas que me deixavam inquieto, e também não sentia coragem de me erguer da cama para examinar o “Corvo” que me assombrava.
Uma árvore balançava lá fora pela força da ventania, e meditei se acaso não eram pequenos galhos que se desprendiam dela e voavam à minha porta, entrementes, me lembrei que a planta estava muito longe de minha casa não havendo qualquer possibilidade de contato.
Então, lutei contra minha própria mente e contra os pensamentos que me sufocavam. Bem devagar, comecei a abrir os olhos. As pálpebras tinham o peso de Morfeu. O quarto estava escuro, porém, quando olhei para o lado em direção à porta, abaixo das escuras cortinas, uma luz cálida, vinda de um poste à rua, adentrava cerca de meio palmo o interior do aposento.
Continuei observando à expectativa de ver a sombra do infeliz ser que perturbava meu sono.
Dizem que o medo é uma das maiores fontes criadoras de Lendas e, àquela noite, eu senti que poderia criar uma.
Já quase cochilava olhando à porta quando uma sombra caminhou da esquerda para a direita, logo após fez o inverso. Meus olhos não queriam piscar, prendi o ar e observei atento.
Não sabia se dormia, talvez fosse um sonho, mas quem ou o quê dava origem ao vulto, não gerava mais barulho algum.
Tinha que me levantar e averiguar, era a única solução, mas isso partindo do pressuposto de um pragmático. Porém, quando se trata de um homem que em criança ouvira tantas estórias da carochinha; amante incondicional de filmes de terror; crente das dicotomias Céu e Inferno, Deus e Diabo; e aquela famosa frase: você nunca está sozinho, e me comprazia com tudo isso. A crença da existência de um universo paralelo é reconfortante, saber que este mundo não é o umbigo do Universo, muito mais.
Então, veja bem, eu não estava apenas com medo, mas, igualmente, curioso. Queria abrir as cortinas do meu quarto e encontrar o inesperado, o impossível, o sobrenatural.
O ruído parara havia já algum tempo. A sombra, porém, se ocultava e depois parecia flutuar.
Levantei-me, lento e silencioso como um gatuno, pé ante pé, a sombra parou de chofre. Continuei vagaroso em direção a ela e, com um movimento lépido, puxei a cortina e vi um toldo que estava mal colocado e o vendaval devia tê-lo feito descer um pouco de modo que ele balançava de um lado para o outro.

3 de jan. de 2008

Recomeço

Ele procurava em meio às esverdeadas colinas, cobertas por gramíneas, ora subia e olhava de cima do monte a avistar melhor todo aquele imenso campo, ora descia quando julgava ter encontrado o que procurava.
Ela ergueu os olhos para o azul celeste, fechou um pouco as pálpebras cansadas e observou o céu desejando encontrá-lo. Talvez esperasse ele descer como um cristo para salvar à humanidade, mas nada acontecia. Tudo era esperança. Nada daquilo fazia sentido, percebeu que não ia durar muito e a Raça estaria enfim extinta.
Buscou no marulho, na brisa e na vastidão do mar almejar o que era fundamental para a vivência de uma espécie que aprendeu a nadar como os peixes, voar como a águia, mas, agora, tudo isso era inútil.
Os dois se encontraram próximo ao rio, que descia sereno e constante sob e sobre a trilha pedregosa e bela, que a cada instante mais esbelto tornava-se.
O olhar vazio de um tocou o triste do outro.
Sem esperança, continuaram a essencial caça ao tesouro mais precioso que o Homem já conhecera. Subiam montanhas, entravam em igrejas, contando com o milagre, percorriam cidades inteiras, campos, serras e praias. Por todos os lugares onde passavam viam um número cada vez maior de animais, mas nenhuma pessoa.
Porém, nunca encontraram e este foi o fim da espécie que não soube aproveitar o dom supremo que havia herdado. Quem sabe o Criador transportou este fenômeno abstrato para um planeta longínquo no continuum espaço-tempo, quiçá encontrou criaturas que davam o devido valor que ele merece.
Jamais saberão onde, quando e como o Amor findou-se, mas agora não adianta mais.

1 de jan. de 2008

Palavras de Pórtico

"Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa: 'Navegar é preciso, viver não é preciso'.
Quero para mim o espírito desta frase, transformada a forma para a casar com o que eu sou: Viver não é necessário; o que é necessário é criar".


Começou um novo ano
No calendário solar
E, como o maior Heterônimo,
O que mais desejo é criar.

25 de dez. de 2007

Mamãe Noel

Esperei receber seu recado
Dentre tantos inúteis natalinos
Não encontrei meu relicário.

Com traquinas matei o tempo
E com a família me distraí
E o que faço agora sozinho
É somente me lembrar de ti.

Vem a hora e agora é
Você diz que irá buscar
Em meus braços o que perdeu
No tempo de imaginar.

E não bastam os meus braços,
Boca, peito e minha mão em seu seio
Sua em mim que seu é meu suor.

(Quanto mais baixa a estrofe
Mais quente o verso sobe)

Lépido, levanto a saia
Com minha glande erguida
Em seu glúteo sem saída.

Arranco, então, a peça derradeira
E, despida conivente, você pede: beija!
Com espaço de uma língua, seu clitóris
Se separa da minha abóbada palatina
Fazendo a alegria desta noite natalina.

9 de dez. de 2007

Boêmio

Cerveja gelada
Assopra meu fogo gole
Que desce gostoso

Este hai cai supra
Escrito fiz num boteco
Lugar escondido

O astro-rei já chama
Só não quero ir embora
E lá vem a Brahma

4 de dez. de 2007

Rascunho

Quero achar a solução para você, poema meu.
Mas você se acanha
e se esconde no verso de cada folha.

26 de nov. de 2007

T. S. Eliot

Quem é o outro que sempre anda a teu lado?
Quando somo, somos dois apenas, lado a lado,
Mas se ergo os olhos e diviso a branca estrada
Há sempre um outro que a teu lado vaga
A esgueirar-se envolto sob um manto escuro, encapuzado
Não sei se de homem ou de mulher se trata
- Mas quem é esse que te segue do outro lado?

.

8 de nov. de 2007





Uma vez carente de atenção
Misturei meus ideais sublimes
Numa silhueta romântica
Com sabor de utopia e
Não soube dividir
Em perfeita simetria
Meu onirismo da razão
Que era minha amiga





O sentimento que dá origem à amizade é crescente, se souber respeitar os limites, não linear, pois todo relacionamento é passível de conflitos, e, estes fecundam conhecimentos sobre o outro que, não houvesse o atrito, ficariam obtusos.
Existem amigos que passeiam em nossas vidas, mas, igualmente, são como chicletes, quando pensamos que eles não voltarão surgem com aquele inato sorriso e brincadeiras que, para outros, não fazem sentido.
Ademais, outros vivem fisicamente longe, porém próximos em espírito e parece mesmo haver um elo psíquico que avisa quando o amigo está em alguma dificuldade.
Alguns entram e saem da nossa convivência e, como numa cópula, geram frutos benignos ou não.
Sabe, amiga, sempre tive grande apreço pelos meus amigos e hoje tenho muito mais. Certas pessoas que conheci me ajudaram de tal forma que meu modo de ver o Mundo e o Homem transfigurou-se em uma ideologia mais coerente com a realidade.
Há um dito pelas ruas que diz que não existe amizade entre homem e mulher. Se isso for verdade, tenho muitas namoradas.

26 de out. de 2007





À margem, há mar
es trondosos
con toadas que
soam à-toa
mar orla
sob troa da
tempesta de
nu vem nubente
que pinga na pedra
sangue transpa
rente ao inverno
luar vernal vira
halo mar ginal

19 de out. de 2007

Jantar, à luz de velas

Tristeza posta à mesa do jantar
Acompanhada com sorrisos fingidos
Corroboram as meias verdades ditas
Com sete mentiras escondidas.

A barbárie da guerra civil
Mesclada à diversão da juventude
Serviu hoje mais um cadáver
Deixando o peixe insosso.

A cadeira vazia dá lugar ao fantasma da saudade,
Que não diz que vai chegar depois das dez
Que não pede sequer um copo d’água.

O suco de goiaba remete ao sangue inocente, pisado
E tem gosto de vingança inútil
Nesta ceia, a esperança é uma Quimera.

17 de out. de 2007

Lunático

Duma Lua muda
Jogo pedra na calçada
Lotada de gente

16 de out. de 2007

Antes de Dormir

Faço força para me concentrar nas imagens
O filme é de guerra — Eastwood
Soldados suicidam-se com a granada ao lado do peito
A honrar seu país. Eu não lutaria por esta terra,
Que só traz mazelas, fome, frio e guerra civil
Hoje, eu não lutaria por nada e nem por ninguém
O medo me dominou.
Medo da polícia, dos bandidos,
Medo de me apaixonar, de olhar embaixo da cama.
E da morte? Eu temo à morte?
Deus, Diabo. Céu, Inferno. Luz, Trevas.
O Homem é o umbigo do Universo, por isso não aceita
Viver só setenta, oitenta anos.
Daí criou Deus e o paraíso,
Mas tem que ser bonzinho pra subir, viu!
Quando o Japão vê a guerra finda e a batalha perdida,
Percebo que pensei em tudo menos no filme.

15 de out. de 2007




Die, Die My Darling

Morra, morra, morra minha querida
Não diga uma única palavra
Morra, morra, morra minha querida
Apenas feche seus lindos olhos
Eu vou lhe ver outra vez
Eu vou lhe ver no inferno

Não chore pra mim, oh baby
Seu futuro é em uma caixa oblonga
Não chore pra mim, oh baby
Deveria ter previsto isso
Não chore pra mim, oh baby
Eu não sabia que isso estava em sua boceta
Não chore pra mim, oh baby
Garota sem saída para um cara sem saída
Não chore pra mim, oh baby
E agora sua vida se esvai por aquele chão
Não chore pra mim, oh baby

14 de out. de 2007

E se...

E se eu disser que te amo, mas as palavras saírem trêmulas de modo a entregar minha falsidade?
E se eu disser que posso sentir meus leucócitos morrerem, um a um, deixando-me incapaz de qualquer imunidade, até mesmo de uma gripe?
E se eu disser que as pessoas se divertem com algo que é a causa da minha doença?
E se eu disser que as estrelas tentam, em vão, imitar o brilho dos seus olhos?
E se eu disser que só fui legal com você por que estava interessado na fenda entre suas pernas?
E se eu disser que estou arrependido por não ter aceitado o seu pedido de namoro simplesmente porque queria curtir meus dezenove anos?
E se eu disser que entendo mais de amizade que amor?
E se eu disser que o seu perfume me excita mais que você?
E se eu disser que a morte é a salvação?
E se depois da morte existir somente o nada?
E se eu não existir?
E se eu transar com Angelina Jolie, fará alguma diferença em minha vida, serei feliz?
E se você me disser que eu só sirvo como amante, contudo não conseguir me deixar?
E se eu disser que todo esse relacionamento não passa de um jogo de interesse e que você não o ama?
E se eu disser que sinto saudade?
E se eu disser que não?
E se eu disser que prezo tanto sua amizade que sinto medo e não quero que você conheça meus defeitos?
E se eu disser que sofro mais por minhas amigas que paqueras?
E se eu me casar?
E se eu disser que o sol não tem mais o mesmo brilho que outrora e que a chuva me deixa eufórico?
E se eu disser que todas as noites, que consigo dormir, sonho contigo?
Mas eu nada digo.

6 de out. de 2007

Cronologia

O tempo é Deus
O Diabo a relatividade.