30 de abr. de 2008
Ideal
Que não é meu mas queria que fosse
Que pudesse ser perfeito e doce
E não mesclasse tanto amargor.
Quando me deito é nela que penso
Quando encerro as pálpebras só divago
Numa noite de um negro céu nublado
Onde repousarei deste lamento.
E tenho mesmo esta esperança
Confusa, que tanto me entontece:
Que a Dama não seja fraca e lânguida,
Que sua foice seja lépida e breve.
Caminha junto de mim uma dor
Ela é minha e eu quero que seja.
Meu único e verdadeiro amor:
A Morte, fim de todos os desejos.
22 de abr. de 2008
Boa Viagem!

- Beto, vai mais devagar, isso é um passeio.
Reduziu a velocidade e expirou forte no vidro já embaçado pela chuva fina que desaguava. Gostava da rotina que mantinha, bom emprego, família com saúde "é isso que importa" carregava essa frase como um mote a confrontar os infortúnios patéticos. Sim! Patéticos. Na verdade nem existiam.
Passaram por uma placa que avisava a aproximação de um posto com restaurante.
- Cleide, vou parar pra comer alguma coisa. Vão querer almoçar, crianças?
A Júlia foi a primeira a gritar que queria chocolate. Pedro preferia salgadinhos.
- Lamento, meninos, mas porcaria só depois do almoço. — ouviu-se um "aaahhh" e o Escort ganhou a entrada do posto.
Logo ao entrar no restaurante, um garçom informou que a comida havia acabado. A família seguiu para a loja de conveniência, como não tinha nenhum alimento nutritivo, chocolate e nem o salgadinho, compraram água e saíram murmurando.
Júlia não parava de reclamar seu chocolate. Pedro falava que ela nunca mais iria comer chocolate, que todos os chocolates do mundo haviam acabado. A garota desabava a chorar. De imediato a mãe consolava Júlia e brigava com o filho.
A viagem prosseguiu.
Após uma hora, aproximaram-se do pórtico de uma cidadezinha e Beto estacionou no acostamento. Do outro lado da rua, duas lanchonetes fechavam as portas. Beto ainda correu para falar com eles, mas baixaram as portas de aço com rapidez.
Atravessou o asfalto xingando e entrou no carro, pisou fundo.
Cinco horas se passaram, as crianças dormiam, outra cidade se aproximava. Avistou um McDonalds (o grande parcimonioso), finalmente iria comer. Sim! Um delicioso Big Mac. Ele grita emocionado:
— Hi-yo, Silver, VAAMMOOOS!
Desgovernado, vinha um carro na contra mão, Beto desvia, ainda empolgado com o palhaço da rede de fast-food, bate numa placa de sinalização Pare, que estranhamente se parte e é arremessada em direção ao pára-brisa, atravessa-o e pára ao decapitar Júlia. A cabeça rola e cai no colo de Pedro, que abre a porta e sai em disparada para a estrada. Um Monza o pega e o arremessa a uma longa distância onde uma carreta trafegava. O garoto cai embaixo dela, partes do corpo ficaram agarradas no pneu e mancharam o asfalto por cerca de cem metros deixando um colorido repugnante, como balões dentro do esgoto. O Monza derrapou na pista molhada e colidiu com sua frente na lateral do Escort, que quebrou a placa do McDonalds e a fez cair em cima de seus ocupantes.
18 de abr. de 2008
Encanto Ausente

24 de mar. de 2008
Uma Tarde

Reconheci, pelos olhos, o sorriso
Só visto em foto de minha amiga
E confabulamos por várias horas
Até o triste matiz do arrebol.
Agora cresce uma má vontade
Em meu peito assaz contrito
Porque chegou a hora da partida,
Da distância longínqua sem alarde.
Na imensa lotação, observo e concluo:
Este lugar é um ermo platônico;
Devotado a Satanás está o mundo,
Oxalá Cthulhu viesse de Plutão!
É melhor o descaso ou a alienação?
Reme, meu peito, singre para longe
Do lacrau urbano e se lembre da feição
Amiga, que sempre será a fuga deste bonde.
18 de mar. de 2008
Venda Transparente
Com o dia futuro virou sonho
Agora a rotina é claustrofóbica
Cercada por paredes ocupacionais,
Lacrada por um teto de obrigações
E ao meu lado tem uma, duas,
Sete e quarenta e duas pessoas
Que não se vêem, mas se olham
E, nesta sala, o número é crescente
De vida, não sei se posso chamar de vida
A liberdade existe, contudo lhe aconselho
A não expressar o seu pensar
Pois a verdade já se definiu há dois mil anos,
E você?
14 de mar. de 2008
Aniversário
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a.olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho... )
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos ...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos. . .
Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira! ...
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...
12 de mar. de 2008
Fotografia

(...) Além disso, milagre, milagre mesmo, por mais que nos digam, não é boa coisa, se é preciso torcer a lógica e a razão das coisas para torná-las melhores.
José Saramago
O calcanhar - quase chegara a encostar o chão de barro seco - espera - inquieto e estático - a sola debruçar-se ao rés do solo para, assim, dar o seu derradeiro passo.
Uma corrente forte de ar ergueu a poeira vermelha fazendo-a girar no espaço vazio a deixar uma nódoa rubra - inerte - suspensa em nada.
O mesmo vento que soprou a terra fez balançar o baraço, por um átimo sufocante, mas logo o laço cessou seu movimento - inocente como uma criança de arma em punho que apesar de sua pureza ainda é fatal.
A Matéria permaneceu imóvel.
O condenado faleceu de outro modo.
(Ao pó não voltarás)
E o cadafalso permanece deserto.
27 de fev. de 2008
Divórcio
e com você compor uns versos
mas nesta linha de privilégios
você escandiu os nossos bens
12 de fev. de 2008
31 de jan. de 2008
26 de jan. de 2008
Sinto saudades do meu tempo de moleque; do tempo em que não me preocupava com meus sentimentos; tempo em que o importante era amar transitoriamente; tempo eterno em minha imaginação; tempo de mordidas agridoces, de perfumes palatinos, de amores instantâneos e de orgias lúdicas. Mas se até quem foi rei disse que não há nada de novo debaixo da noite estrelada quem sou eu para me orgulhar daqueles momentos eternizados em minha memória, e talvez só nela, na dos outros não.
A lembrança alheia não tem importância para ninguém, não quero saber o que está pensando, sinta apenas o que estou olhando e será feliz.
25 de jan. de 2008
Reinus
Avisto dois pequenos montes morenos de solo fértil
Como portal firmado à entrada do palácio.
Teus lírios têm perfume estrogênico
E me rendo aos teus odores.
Rainha
Deixa-me sentir por miríades de gerações
O néctar viril jorrar de teu viçoso rio.
Ó, meu rei, não tenho mais terra para tanto gozo.
Freedom
Não sei bem onde ficam as fronteiras
Quando o limite é violado.
23 de jan. de 2008
À Emoção Que Nos Cega
Havia acabado de fazer o meu lanche noturno quando me deitei. Era pouco mais de uma da manhã e o silêncio invadia meus pensamentos com imagens e sons claustrofóbicos, se é que imagem e som podem aceitar tal adjetivo. Não conseguia correlacionar àquelas troadas com as alucinações tétricas que me deixavam inquieto, e também não sentia coragem de me erguer da cama para examinar o “Corvo” que me assombrava.
Uma árvore balançava lá fora pela força da ventania, e meditei se acaso não eram pequenos galhos que se desprendiam dela e voavam à minha porta, entrementes, me lembrei que a planta estava muito longe de minha casa não havendo qualquer possibilidade de contato.
Então, lutei contra minha própria mente e contra os pensamentos que me sufocavam. Bem devagar, comecei a abrir os olhos. As pálpebras tinham o peso de Morfeu. O quarto estava escuro, porém, quando olhei para o lado em direção à porta, abaixo das escuras cortinas, uma luz cálida, vinda de um poste à rua, adentrava cerca de meio palmo o interior do aposento.
Continuei observando à expectativa de ver a sombra do infeliz ser que perturbava meu sono.
Dizem que o medo é uma das maiores fontes criadoras de Lendas e, àquela noite, eu senti que poderia criar uma.
Já quase cochilava olhando à porta quando uma sombra caminhou da esquerda para a direita, logo após fez o inverso. Meus olhos não queriam piscar, prendi o ar e observei atento.
Não sabia se dormia, talvez fosse um sonho, mas quem ou o quê dava origem ao vulto, não gerava mais barulho algum.
Tinha que me levantar e averiguar, era a única solução, mas isso partindo do pressuposto de um pragmático. Porém, quando se trata de um homem que em criança ouvira tantas estórias da carochinha; amante incondicional de filmes de terror; crente das dicotomias Céu e Inferno, Deus e Diabo; e aquela famosa frase: você nunca está sozinho, e me comprazia com tudo isso. A crença da existência de um universo paralelo é reconfortante, saber que este mundo não é o umbigo do Universo, muito mais.
Então, veja bem, eu não estava apenas com medo, mas, igualmente, curioso. Queria abrir as cortinas do meu quarto e encontrar o inesperado, o impossível, o sobrenatural.
O ruído parara havia já algum tempo. A sombra, porém, se ocultava e depois parecia flutuar.
Levantei-me, lento e silencioso como um gatuno, pé ante pé, a sombra parou de chofre. Continuei vagaroso em direção a ela e, com um movimento lépido, puxei a cortina e vi um toldo que estava mal colocado e o vendaval devia tê-lo feito descer um pouco de modo que ele balançava de um lado para o outro.
3 de jan. de 2008
Recomeço
Ela ergueu os olhos para o azul celeste, fechou um pouco as pálpebras cansadas e observou o céu desejando encontrá-lo. Talvez esperasse ele descer como um cristo para salvar à humanidade, mas nada acontecia. Tudo era esperança. Nada daquilo fazia sentido, percebeu que não ia durar muito e a Raça estaria enfim extinta.
Buscou no marulho, na brisa e na vastidão do mar almejar o que era fundamental para a vivência de uma espécie que aprendeu a nadar como os peixes, voar como a águia, mas, agora, tudo isso era inútil.
Os dois se encontraram próximo ao rio, que descia sereno e constante sob e sobre a trilha pedregosa e bela, que a cada instante mais esbelto tornava-se.
O olhar vazio de um tocou o triste do outro.
Sem esperança, continuaram a essencial caça ao tesouro mais precioso que o Homem já conhecera. Subiam montanhas, entravam em igrejas, contando com o milagre, percorriam cidades inteiras, campos, serras e praias. Por todos os lugares onde passavam viam um número cada vez maior de animais, mas nenhuma pessoa.
Porém, nunca encontraram e este foi o fim da espécie que não soube aproveitar o dom supremo que havia herdado. Quem sabe o Criador transportou este fenômeno abstrato para um planeta longínquo no continuum espaço-tempo, quiçá encontrou criaturas que davam o devido valor que ele merece.
Jamais saberão onde, quando e como o Amor findou-se, mas agora não adianta mais.
1 de jan. de 2008
Palavras de Pórtico
Quero para mim o espírito desta frase, transformada a forma para a casar com o que eu sou: Viver não é necessário; o que é necessário é criar".
No calendário solar
E, como o maior Heterônimo,
O que mais desejo é criar.
25 de dez. de 2007
Mamãe Noel
Dentre tantos inúteis natalinos
Não encontrei meu relicário.
Com traquinas matei o tempo
E com a família me distraí
E o que faço agora sozinho
É somente me lembrar de ti.
Vem a hora e agora é
Você diz que irá buscar
Em meus braços o que perdeu
No tempo de imaginar.
E não bastam os meus braços,
Boca, peito e minha mão em seu seio
Sua em mim que seu é meu suor.
(Quanto mais baixa a estrofe
Mais quente o verso sobe)
Lépido, levanto a saia
Com minha glande erguida
Em seu glúteo sem saída.
Arranco, então, a peça derradeira
E, despida conivente, você pede: beija!
Com espaço de uma língua, seu clitóris
Se separa da minha abóbada palatina
Fazendo a alegria desta noite natalina.
9 de dez. de 2007
Boêmio
Assopra meu fogo gole
Que desce gostoso
Este hai cai supra
Escrito fiz num boteco
Lugar escondido
O astro-rei já chama
Só não quero ir embora
E lá vem a Brahma
4 de dez. de 2007
Rascunho
Mas você se acanha
e se esconde no verso de cada folha.
26 de nov. de 2007
T. S. Eliot
Quando somo, somos dois apenas, lado a lado,
Mas se ergo os olhos e diviso a branca estrada
Há sempre um outro que a teu lado vaga
A esgueirar-se envolto sob um manto escuro, encapuzado
Não sei se de homem ou de mulher se trata
- Mas quem é esse que te segue do outro lado?
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